LUGARES DA MINHA TERRA
2-A ESTAÇÃO




A Estação como lugar, não existe e na verdade, nunca existiu.O local onde ainda hoje se encontra a vetusta Estação da CP, mesmo ao lado da desaparecida fábrica de serração "A ULENSE", teve Areosa como nome de baptismo.Do lugar Areosa, fazia ainda parte um prédio, propriedade da família Marques Pinheiro, que ainda hoje resiste, com a sua fachada original, austera e antiquada, uma espécie de colmeia de habitações, com um armazém e uma "loja", no rés-do-chão.O termo "loja", habitualmente designa os espaços comerciais "multi-usos" das terras pequenas, do qual fazem parte a Mercearia e a "Tasca" e às vezes outros componentes, como a Barbearia, a sala de jogos (cartas e/ou matraquilhos), o Telefone e a venda de gás.Como é hábito, a loja ostenta o nome do proprietário.Só na estrada que liga Areosa à Igreja, contavam-se em tempos, cinco destas lojas e ainda hoje, persiste, uma ou outra, com novas roupagens: Silva, Libras, Beato, Raimundo e Severino.Mas existiam, mais de uma dúzia destes típicos estabelecimentos, por toda a freguesia.
Nesse prédio, situado em frente à Ulense, não podia faltar a tradicional "loja". De todos os proprietários desta loja, o mais carismático, foi, sem dúvida, o saudoso Sr. João Almiro Silva, homem de grande valor, que começou a sua actividade profissional em UL, como chefe de Estação da CP e nas décadas de 70-80 chegou a ser Presidente da Junta. Nas décadas de 60 e 70, a "loja do Silva", recebia autênticas multidões, facto digno de nota para a época e sem paralelo noutras terras com a mesma fisionomia. Muita gente que utilizava o comboio, e até muitos, que a pé ou de bicicleta, usavam a própria linha do caminho de ferro, ou o caminho do Serro, para vencer a curta distância que separa UL de Oliveira, pessoas que trabalhavam na Ulense, vindos de vários lugares de Travanca, de Palmaz ou do Pinheiro, por qualquer razão, paravam na loja do Silva, mercearia de referência, e onde o vinho maduro gozava de uma fama assinalável.
As três entidades -A loja do Silva, a Ulense e a Estação- formavam, de facto, uma única realidade, a alma do lugar, não sendo de estranhar que o mesmo destino, foi também, por eles partilhado.Hoje a loja existe com outros donos, com um ambiente e serviços mais adequados aos novos tempos, e continua, decerto, a ser apreciada por muitos.Mas já não é a loja do Silva, e isto diz tudo...
A Ulense, outrora um dos orgulhos de UL, sucumbiu de morte natural, após alguns anos de marasmo, não sobrevivendo à modernidade e aos seus novos paradigmas.Hoje só se identifica o solo, onde se erguiam os escritórios, os pavilhões e os estaleiros.Quem tiver fotografias, que as guarde...Os outros, que como eu, passaram grande parte da vida naquele local, podem usar a memória para ver de novo os muros, o velho portão grande, ao pé do qual se erguia uma árvore imponente, talvez um Carvalho, que formava um chapéu formidável no Verão e no Inverno, uma espécie de estádio coberto para uns toques de bola e onde se pendurava um Judas por altura do Entrudo...
Se fecharem os olhos e se concentrarem mais, podem ainda dar uma mirada no interior, nas máquinas, nos fornos, nas tabuinhas cuidadosamente empilhadas e até ouvir de novo a sirene assinalando o meio dia...
Às vezes, ainda pressinto o seu vulto fantasmagórico, quando à noite, passo de carro, pela Estação...
Imagens visuais e sonoras, da MAN ou da "pequenina", camionetas "de guerra", guiadas pelo meu pai, a subir a estrada, que do "largo do Rojão" , levava à Ulense, são dificeis de esquecer.Até, porque às vezes, este escriba, então com 5 ou 6 anos, tinha o privilégio de viajar no lugar do ajudante...
A Estação da CP, era tão importante para UL e para as terras vizinhas, que ali escoavam para os grandes centros, os seus produtos, desde coelhos e galinhas até lacticínios. Era o transporte por excelência, com destinos tão díspares como Oliveira de Azeméis e Viseu e com finalidades tão variadas, servindo trabalhadores, estudantes ou pessoas comuns por simples lazer, como ir à praia a Espinho, à festa das fogaças à Vila da Feira, ou ainda, ao Futebol...
Mas realmente espantoso, era o fluxo de gente, em Fevereiro, nas festas de S.Brás, de tal magnitude, que obrigava a CP a utilizar comboios especiais e a fazer vedações com travessas de madeira, nas imediações da estação para conter os borlistas...
Falar da Estação e esquecer as pessoas que lá trabalharam, não faz sentido.Fazem parte desta história, o falecido sr. José Delgado, meu padrinho de baptismo, um prestimoso auxiliar, pau para toda a colher, desde mudar as agulhas, até cuidar do jardim.O saudoso sr. Forte, fazendo juz ao nome, capataz com funções mais abrangentes ao longo da linha.E claro, o Chefe, ao tempo, o Sr. Correia que vivia com a sua família na própria estação.Lembro-me bem, ainda miúdo, de passar horas, a arrancar as ervas daninhas, que estragavam o jardim a cargo do zeloso Sr. Delgado, que o preparava para o concurso de jardins, organizado pela CP. Nunca cheguei a saber, se tal trabalho foi alguma vez premiado, mas no meu íntimo acredito, que quando se vence o esquecimento das coisas boas, nunca se perde...
E o "Farrusco", que dizer da nostalgia que provoca, a visão dessas máquinas de porte imponente, marcando com o seu arfar sincopado, o avanço imperial sobre o ferro dos carris ? E dos poderosos sons, emitidos por estas máquinas a vapor, tão característicos que marcavam o compasso da vida quotidiana, mais que os poucos relógios que havia na época...eram dez horas, porque se fizera ouvir, de forma clara e distinta, o comboio das dez...
A estação, qual anciã de 90 e tal anos, também morreu de morte natural.A persistência da circulação de alguns inestéticos e lentíssimos comboios "modernos", na Linha do Vale do Vouga, já amputada de troços históricos, é que constitui a situação anormal, um verdadeiro anacronismo, numa época de TGVs!...
Felizmente, tal como Lázaro, a Estação de Ul, teve uma segunda oportunidade de continuar a existir, amplamente renovada mas com a mesma traça original, e com outra finalidade, a não menos nobre arte da restauração, obra pensada e levada adiante por um Ulense , que se saúda, porque deu o justo valor a um verdadeiro ex-libris de UL. E, pensando bem, Refúgio del Rey, até que é um nome que honra a história do lugar, porque exige qualidade e não fora o primeiro troço da linha do Vale do Vouga inaugurada por El rei D. Manuel II, no remoto ano de 1908...
Estação era o nome, pelo qual, Areosa era mais conhecida.E ninguém estranhava ou levava a mal, afinal,todos nós temos vários nomes ou apelidos ...
Curiosamente eu penso que o nome Areosa, embora relativamente comum noutras paragens, no caso de UL teve origem num largo que havia junto à estação da CP, e que era conhecido entre a garotada por "Areia" e onde se jogava umas renhidas partidas de bola, do tipo "muda aos 5 e acaba aos 10"! Nós, os da terra e também os trabalhadores da Ulense, imagine-se, no intervalo do almoço!...
Durante muito tempo, o lugar da Estação, foi o centro físico do meu mundo e imagino que também em volta dele gravitaram os sonhos de outras pessoas.
Esta é uma visão necessáriamente pessoal, de quem passou a infância e grande parte da juventude, naquele modesto lugar.
Guardo na memória estórias impublicáveis, mas não resisto a usar o humor do Sr. Silva, para ilustrar um pouco, o ambiente festivo do lugar.
Aos clientes mais antigos e com quem tinha grande confiança, o Sr. Silva cumprimentava, frequentemente, com a expressão "Sr. chefe geral das putas !" Ninguém levava a mal e era uma risota geral! Mas mais ainda, quando à loja assomavam cavalheiros de aspecto mais sério, provenientes de outras paragens e a quem o impagável Sr. Silva cumprimentava: "Sr. chefe geral"!...